17/02/2009

VÁ DE BIKE!


No Brasil, houve nas últimas décadas a associação da bicicleta com lazer e esporte, relegando-a como meio de transporte apenas às camadas sociais mais baixas.

A sociedade se acostumou a ver a bicicleta como brinquedo ou como falta de opção para quem ainda não pôde comprar um carro, graças à cultura do automóvel instalada no Brasil a partir das políticas centradas no automóvel de Juscelino Kubitschek, Prestes Maia, Paulo Maluf e outros tantos.

Parte da culpa disso também recai sobre Caloi, Monark e mais recentemente a Sundown, que dos anos 80 para cá reforçaram o conceito de bicicleta apenas como lazer, esquecendo que ela também é um meio de transporte e que metade das vendas de bicicletas se destina a esse fim. Nem mesmo vindo alguém de fora para ensinar (como a Dahon, que mal chegou e já está fazendo bastante sucesso apostando exclusivamente no uso urbano da bicicleta), as grandes fábricas aprenderam. Quem sabe quando a Dahon tiver engolido uma bela fatia do mercado eles acordem...

Nos outros países, sobretudo na Europa, onde a bicicleta sempre foi principalmente um meio de transporte, as pessoas têm outra visão de como utilizá-la. Aqui, quando alguém vai elegante a algum evento, quer ir de carro, seja ele próprio, táxi, ou carona. Lá, a bicicleta também serve para isso. Afinal, há onde estacionar, as bicicletas têm algumas pequenas diferenças para não estragar a roupa (adaptações que podemos fazer nas nossas, como protetor de corrente e guarda-saias), possuem bagageiro, as trancas em U são vendidas em qualquer loja e o ciclista é respeitado nas ruas e nos estabelecimentos.

As bicicletas são usadas não só para ir ao trabalho e à escola, mas para ir ao mercado, ao cinema, à casa dos amigos e até às festas. Enquanto isso, aqui o chique é ficar preso no trânsito mesmo no final de semana, levar meia hora para andar os últimos 500 metros do local do show e pagar R$ 20 de estacionamento ou R$ 10 para um flanelinha... E não me venham com aquelas velhas falácias de que não dá apra andar de bicicleta aqui por causa das subidas ou do calor, porque isso é desculpa que se dá para si mesmo: as subidas você contorna ou desce e empurra a bicicleta devagar; quanto ao calor, você pode pedalar mais devagar e suar o mesmo que se estivesse andando (e ainda ser refrescado pelo vento), ou pode levar outra roupa e se limpar e se trocar no destino ou próximo a ele.

Nosso consolo é que aos poucos, isso vai mudando por aqui também. A mudança já começou e chegou até à mídia tradicional (TV, jornais e revistas), que sempre foi totalmente favorável ao automóvel, mesmo em detrimento do transporte coletivo, já que a maior parte dos anúncios vem de montadoras, concessionárias e outras empresas que lucram com produtos e serviços relacionados ao automóvel. Não há mais como continuar na contramão do mundo: as coisas vão melhorar cada vez mais para os ciclistas urbanos, haverá cada vez mais infra-estrutura e respeito nas ruas.

O Texto acima foi escrito por Willian Cruz , mountain-biker praticante do estilo cross-country, mas adora descer uma escadinha com sua hard-tail. Ciclista urbano por definição, trilheiro de vez em quando, cicloturista quando pode, competidor uma vez ou outra e cicloativista na medida do possível, dá seus pulos por aí na área de informática. Gerente de Sistemas e Desenvolvedor com 20 anos de experiência, já trabalhou para empresas como Editora Globo, iG, Globo.com, Mandic e G&P, tendo participado de diversos projetos de publicação de conteúdo na internet.

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